Airton Ortiz: Rumo aos pólos,

o livro de Julio Fiadi

Autor: Airton Ortiz

A última moda no Brasil é fazer uma viagem e escrever um livro. Normalmente as viagens são maravilhosas, criativas e cheias de emoções. No entanto, os relatos resultantes dessas experiências são, quase sempre, puro lixo, textos que em nada refletem a complexidade do ser humano diante de uma realidade adversa. O pessoal simplesmente se limita a descrever o cenário, como se o homem, essa incrível criatura, não existisse. Como se o fato de escalar uma montanha ou cruzar um oceano qualificasse alguém para escrever um livro.

As pessoas esquecem, ou não sabem mesmo, que um livro deve ser muito mais importante para quem o lê do que para quem o escreve. Não consigo imaginar alguém que não tenha lido Jack London, Rudyard Kipling, Robert Stevenson ou Mark Twain escrevendo um livro de aventura e querendo ser levado a sério.

Isso é ruim para o próprio autor, porque daqui a alguns anos o que ficará da aventura será o relato do seu livro. É o que eu chamo de o autor denegrir a sua própria imagem. Quando o cara desaparecer da mídia, o que as gerações futuras vão saber sobre seus feitos será o que ficou escrito no livro, isto é, nada importante. Outro dia li um texto (chegam-me muitos) de um rapaz que escalou uma perigosíssima montanha e em momento algum falou sobre a questão do medo. Quer dizer: ou o cara não é um ser humano ou não teve sensibilidade para se dar conta do que estava fazendo na montanha.

Infelizmente, creio que alguns grandes aventureiros brasileiros, com feitos notáveis, vão passar em branco na história por culpa dos seus péssimos livros, relatos sem pés nem cabeça, apenas prestações de contas para amigos, patrocinadores e o próprio umbigo. Enganam-se com o próprio marketing, caem na sua própria armadilha. Tudo por conta da vaidade. Com a devida cumplicidade de editores incompetentes, mais preocupados com a tiragem do que com os estragos que a obra fará na biografia do autor.

Resumindo: a qualidade de uma aventura não assegura, necessariamente, a qualidade de um livro.

 

É uma pena que o livro tenha apenas 289 páginas, podendo ser percorrido num fim-de-semana. Fosse mais grosso, nossa agradável viagem com Julio nos manteria felizes por mais tempo.

Rumo aos Pólos

 

Felizmente esse não é o caso do livro "Rumo aos pólos", de Julio Fiadi (Editora Alegro, 289 páginas, R$ 39,00), que acabo de ler. Isso é raro, creiam-me. Fiquei surpreso com a qualidade do livro. Esperava apenas mais um relato, como tantos outros, mas enganei-me. Descobri um texto escrito com sensibilidade, assinado por alguém que não se importou em "parecer" humano. Escrito com leveza e bom humor, uma agradável leitura.

(Vejam bem: não estou falando das aventuras narradas nos livros que atualmente estão entrando no mercado. Essas, são maravilhosas sob qualquer ponto de vista! Estou falando do "produto" livro, tema a que esta coluna se dedica no momento).

Julio Cesar Fiadi, ficamos sabendo logo na orelha do livro, "além de velejador, com cinco passagens pelo cabo Horn e seis viagens à Antártica (o autor usa a grafia Antártica em vez de Antártida), é mergulhador e piloto de avião. É o primeiro brasileiro a percorrer a "Rota de Shackleton", na ilha Geórgia do Sul, e a alcançar os dois pólos da Terra".

Pois são essas três aventuras que estão contadas no "Rumo aos pólos": uma caminhada ao Pólo Norte, a travessia do que o autor chama de a "Rota de Shackleton" e uma caminhada ao Pólo Sul. No caso dos pólos, percorrendo por terra (quer dizer, por gelo!) o último grau de latitude, algo em torno de 120 quilômetros, dependendo das derivas no Norte. Ditas assim, parecem coisas corriqueiras, de fácil execução. Uma caminhada até o Pólo...claro, quem se habilita?

Mas o Julio sabe que não é tão fácil, embora tenha menosprezado alguns perigos (ou pelo menos não nos falou deles), na ânsia de não querer parecer um "super-herói". Mesmo assim, embora sua modéstia, na minha opinião seu feito está muito além da capacidade normal dos homens comuns. Suas aventuras são extraordinárias. E estão bem contadas. Em alguns momentos sofremos com o frio que emana das páginas do livro, mas em outros nos divertimos, especialmente imaginando o autor disputando uma corrida a pé ao redor do planeta.

(É claro que não vou contar o final da história. Para saber quem ganhou a corrida será preciso comprar o livro! Eu nunca imaginei - e creio que vocês também não - que se pudesse apostar uma corrida a pé ao redor da Terra. Como diria aquele senhor barbudo que fazia propaganda daquele banco: "Esse Julio...")

Aprendemos muito com Julio Fiadi, acompanhando suas agruras em meio ao gelo, tempestades de neve, ameaças de ursos, frágeis aviões, companheiros despreparados e as traiçoeiras fendas (o autor usa a palavra crevasse) no gelo.

Aqui vale uma nota: normalmente nossos escritores de livros de viagens se limitam a reproduzir palavras estrangeiras, esquecendo que escrevem em português, mesmo quando existem palavras em português para exprimir o mesmo significado. Isso não acontece apenas com iniciantes, não. É comum vermos profissionais da escrita cometendo essa grosseria com a nossa língua, para alguns seu próprio instrumento de trabalho, demonstrando uma falsa erudição. Felizmente, mais uma vez, Fiadi raramente cai nesse "vício de linguagem".

Além das próprias peripécias do autor, outros dois aspectos valorizam o livro: primeiro, as histórias colaterais que ele vai nos contando durante as viagens, usando suas experiências como "gancho" para nos relatar as aventuras das grandes expedições históricas que o antecederam nos mesmos lugares. Julio Fiadi conhece profundamente a trajetória das descobertas polares e partilha essas maravilhas com os leitores, dando ritmo à sua própria saga.

Segundo, o livro traz dois cadernos recheados com extraordinárias fotos. São 78 cromos coloridos além de diversos mapas e gráficos para que o leitor possa situar-se com precisão nos locais descritos na história. Aqui, cabe também um elogio à editora pela bela produção da obra, que, mesmo com todo essa qualidade gráfica, não está cara - algo realmente importante num país tão pobre como o nosso.

No final, ficamos lamentando apenas o fato de Fiadi ser um empresário e não um jornalista. Sem o cacoete do repórter, abordou apenas superficialmente alguns fatos que, quando bem detalhadas, poderão mudar significativamente a história do alpinismo brasileiro.

 

Crítica de Airton Ortiz