Sobre o Gelo Fino

Autor: Julio Fiadi



capítulo do livro "Rumo aos Pólos" pág. 3

Por uma semana os oito homens tinham caminhado em fila, arrastando seus trenós sobre as placas de gelo flutuante.

Agora pela primeira vez avançavam juntos, lado a lado. Na mão de um deles, uma caixinha amarela do tamanho de um maço de cigarros, que parecia ainda menor no meio da enorme luva para frio que a segurava.

Todos olhavam para os números que apareciam na tela de cristal líquido da caixinha amarela, e ficavam cada vez mais excitados conforme os números iam mudando.

Caminharam mais um pouco, e pararam. É aqui, gritou o que tinha a caixinha na mão. Chegamos ! E os homens, com seus rostos gelados, tiraram seus esquis e começaram a se abraçar e a comemorar.

A caixinha era um GPS, uma maquininha que recebe sinais de satélites, e informa sua exata posição na superfície da Terra. Chegáramos ao Pólo Norte Geográfico. Um lugar especial do mundo, onde todos os meridianos se encontram e, portanto, o horário que o relógio marca não faz sentido. Um lugar onde o Sol só nasce uma vez por ano, para ficar seis meses no céu, girando praticamente na mesma altura o dia inteiro. Se você quiser assistir o por do Sol, e perder a hora, terá que esperar mais um ano para ver o espetáculo.

Pisávamos sobre uma placa de gelo flutuante com menos de um metro de espessura e, abaixo dela, um oceano gelado e escuro com 4500 metros de profundidade. A temperatura era de 25 graus abaixo de zero, e à nossa volta nada além de pilhas de blocos de gelo que se estendiam até o horizonte. Felizes, montamos acampamento no Pólo Norte.

A barraca principal, que mais parecia a tenda de um pequeno circo por ser redonda e sustentada por um mastro central, montamos exatamente em cima do eixo imaginário sobre o qual a Terra gira. Dentro dela descansamos enquanto derretíamos neve para termos água para beber e cozinhar.

Sentados em volta do fogareiro, começamos a pensar que, enquanto eu, por estar sentado bem em cima do meridiano que corta Moscou, estava no meio-dia do horário local, meu companheiro, que estava bem à minha frente, estava na meia-noite. Para quem se sentava à minha direita, eram seis da tarde, e já quem estava à minha esquerda, ainda estava às seis da manhã. Parecia loucura, mas era a realidade.

Enquanto esperava a neve na panela derreter, saí para ver se o Sol iria realmente girar o dia inteiro em torno da nossa barraca, sempre na mesma altura.

Lembrei-me que há poucos meses, meu amigo Amyr Klink tinha dado uma volta ao Mundo com seu fiel veleiro Paratii, pela rota mais curta possível.

Navegando sempre para Leste a partir da Ilha Geórgia do Sul, e mantendo-se ao Sul do Paralelo 55° S, Amyr deu uma volta na Antártica passando por todos os meridianos e chegou de volta à Geórgia do Sul. "Caramba!", pensei. "Posso fazer a mesma coisa !" É só dar uma volta na barraca, que também terei dado uma volta ao mundo cruzando todos os meridianos. Só que vou dar duas voltas, só para passar na frente dele. Enquanto andava, lembrei-me de que tanto a família Shürmann como um outro amigo, o Aleixo Belov, já haviam dado duas voltas ao Mundo em seus veleiros. O Aleixo já se preparava para a terceira.

Decidi, então, dar logo sete voltas ao Mundo para ninguém me alcançar. E comecei a correr em volta do pequeno circo erguido no Pólo Norte. Quando completei a sétima volta, resolvi correr também no outro sentido, para ter tanto sete voltas para Leste, como para Oeste. O russo Sergueï saiu da barraca e, ao me ver correndo, perguntou por que eu estava fazendo aquilo.

Depois que expliquei, ele me fez um convite: "Vamos apostar uma corrida de volta ao Mundo!" E alguns segundos depois, eu ganhava o que eu acho ter sido a primeira corrida de volta ao mundo a pé. Serguei pediu revanche, e então acrescentei ao meu curriculum o segundo lugar na segunda corrida de volta ao mundo a pé.

Depois das brincadeiras e da euforia da chegada ao Pólo Norte, comecei a me lembrar de que, desde as primeiras leituras sobre os exploradores polares da época heróica, eu sonhava em chegar ao Pólo Sul, caminhando sobre o platô antártico, assim como fizeram Amundsen, Scott e seus companheiros. Agora eu estava exatamente do lado oposto da Terra, no ponto mais distante possível do meu objetivo. Por que será que os caminhos que a vida toma, me levaram para o Pólo Norte, ao invés do Pólo Sul ?

Então me lembrei de que, quando se está no Pólo Norte, só existe um rumo a seguir: o SUL. E que não importa para onde você siga, se mantiver uma linha reta, ela vai cobrir meio mundo e passar bem em cima do Pólo Sul. Um passo em qualquer direção e eu estaria a caminho do Pólo Sul !

Apesar da enorme distância, nunca tinha me sentido tão próximo do meu objetivo maior.

E fui dormir contente na minha barraquinha, que durante as minhas oito horas de sono, derivou 1500 metros junto com a enorme placa de gelo flutuante sobre a qual acampamos. Eu já não estava mais no Pólo Norte. Sem perceber, eu já derivava feliz rumo ao Pólo Sul !
» Voltar
Fotos: Julio Fiadi


A caminho do Pólo Norte

A caminho do Pólo Norte

Acampamento sobre a banquisa

Chegada ao Pólo Norte

Veja a galeria de fotos

Clique aqui