Viajando de moto pela Serra da Canastra

Autor: Julio Fiadi


Serra da Canastra

Assim como acontece em relação às mulheres, é inexplicável e imprevisível a paixão que sentimos por alguns lugares do Mundo. Minha paixão pela Antártica levou-me 7 vezes ao Continente Branco - uma delas ao Pólo Sul Geográfico - e mesmo assim ainda morro de saudades do extremo Sul. Mantenho o mesmo tipo de sentimento em relação a Ilhabela, no litoral Norte paulista, e à Baia de Camamú, na litoral baiano.

Quando o amigo Zé Antônio falava entusiasmadamente das viagens de moto para a Serra da Canastra, eu entendia muito bem o que significava aquele brilho nos seus olhos. Experiente motociclista com mais de 250 mil quilômetros rodados sobre as BMW GSs (fora os milhares de outros kms rodados em outras motos), o Zé Antônio conhece como poucos a América do Sul, em incontáveis viagens de moto pelo continente. Mas, a Serra da Canastra tinha despertado nele, uma daquelas paixões imprevisíveis.

O que mais me atraiu quando o Zé fez o convite para viajarmos para lá, foi o relato sobre desertas estradas de terra, que serpenteavam entre serras e cachoeiras, e que só poderiam ser vencidas com motos fora-de-estrada ou veículos 4X4. Exatamente o tipo de viagem que mais me interessa.

Embora eu também goste de viajar de moto sozinho, boa companhia é uma das coisas que faz uma viagem ficar ainda mais interessante. Por sorte, o João Cordeiro e o Durval Motta, mais dois apaixonados pelas BMW GS e companheiros de diversas outras viagens, decidiriam viajar conosco. Preocupado com as dificuldades que nossas pesadas GSs encontrariam nos caminhos off-road, o Durval resolveu deixar sua BMW em casa, e foi com uma Suzuki DR 650.

Partindo de São Paulo na sexta-feira, dormimos em Passos, já em Minas Gerais, e no sábado atravessamos a balsa para São João Batista do Glória. Daí pra frente seriam 300 quilômetros rodados somente em estradas de terra. A travessia da balsa, assim como acontece a cada vez que vou para Ilhabela, marcou a entrada para um outro mundo, muito diferente daquele que vivo no dia-a-dia da megametrópole, e a balsa é a fronteira em que ele fica para trás. Nas pequenas cidades que circundam a serra, o tempo tem outro rítimo, e pessoas amistosas falam lentamente com o delicioso sotaque mineiro.

Ao atravessar o Vão da Babilônia, comecei a entender a magia do lugar. Serras escarpadas cercando um estreito vale verde, por onde nossa estradinha serpenteava, às vezes no fundo do vale, outras vezes pendurada nas encostas verticais. Dentro do vale, em uma casa com um pitoresco telhado de pedra sabão, estava o Sr. José Zito, lenda viva da região e exemplo da hospitalidade do povo local. Conhecido do Zé Antônio de outras viagens, foi divertido ver os dois conversarem sobre a ocasião em que ele hospedou um grupo de 15 motociclistas, que por causa da chuva , não conseguiram seguir em frente , e passaram a noite em sua casa.

Seguindo viagem...

Olhando as estradas, fica fácil entender que se chover forte, em alguns trechos torna-se realmente muito difícil seguir em frente. Ou mesmo voltar! Mas o melhor ainda estava por vir. Quando vi um sinuoso risco branco subindo pelo lado direito do vale, entendi os avisos de que as estradas ficariam bem piores daí para frente. Era a subida do "Osmar Queijeiro' ou "Serra Branca": uma inclinada estrada sinuosa, toda esculpida em rochas de pedra mineira. Muito bonita, mas um desafio real para motos e pilotos, especialmente para o Zé Antônio, que além da bagagem, trazia a Érika na garupa.

É muito fácil perder a tração quando se anda em um plano bastante inclinado, sobre um piso de pedras menores, soltas sobre pedras maiores. E se isto acontecer, e a moto começar a voltar para trás, a queda é inevitável. Cair em alguns dos pontos da subida, seria especialmente desastroso, pois a moto só pararia centenas de metros montanha abaixo. Foi ao mesmo tempo suado e prazeroso subir a Serra do Osmar Queijeiro, e o prêmio foi a privilegiada vista panorâmica de cima da montanha, que incluía a imponente cachoeira Casca D'anta com seus 186 metros de queda livre.

Descemos em direção a São José do Barreiro pela "Serra do Rolador", este também outro trecho que nos cobrou um pouco de cuidado na pilotagem. Depois de uma visita a parte baixa da cachoeira da Casca D'Anta, fomos pernoitar na simpática São Roque de Minas.

Na manhã de domingo, a caminho da entrada leste do Parque Nacional, visitamos também as quedas d'água do Capão do Forro. Não resisti, e em pouco tempo estava nadando pelado na lagoa de águas cristalinas, que existia em baixo de uma das mais lindas cachoeiras que já vi na vida. Andamos ainda 120 quilômetros dentro do Parque Nacional da Serra da Canastra, visitando a nascente do Rio São Francisco, a parte superior da Casca D'Anta e a cachoeira do Rolinho, antes de voltarmos para o asfalto via Piumhi.

Apesar de pesadas, as BMW GS 1150 enfrentaram muito bem as precárias estradas, especialmente as modelo Adventure. Continuo achando que são as motos ideais para longas viagens, principalmente porque você não tem que se preocupar com o tipo de estrada que vai encontrar pela frente. O perigo é ir parar em lugares como a Serra da Canastra, e de repente ficar inexplicavelmente apaixonado pela região, e como um amante descontrolado, não pensar em outra coisa, a não ser voltar para os braços da amada. Eu, por exemplo, não vejo a hora de voltar com minha moto pra lá. A Canastra é agora, mais uma de minhas paixões.


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Fotos: Julio Fiadi


Serra da Canastra

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